Reconhecida como a indústria sem chaminés, a hotelaria tem grande interesse em preservar a biodiversidade, pois as riquezas naturais são argumentos contestáveis para atrair e fidelizar turistas. Inúmeros empreendimentos observam procedimentos preservacionistas, prática que tende a abranger a totalidade do parque hoteleiro brasileiro. Com essa atitude, além de bom desempenho econômico do negócio, o setor dá sua modesta contribuição para minimizar as terríveis previsões mundiais sobre o futuro da terra.
Nos últimos meses, os nefastos efeitos do aquecimento global ocuparam as manchetes dos jornais, com as conclusões do relatório do IPCC (em inglês, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), da ONU (Organização das Nações Unidas). Essas pesquisas comprovaram estudos feitos há 25 anos, dissipando quaisquer dúvidas de que o aumento repentino da temperatura planetária se deve à ação humana. Por sua magnitude, o problema exige soluções globais, mas requer maior mobilização de todos os países, visando à diminuição das emissões de dióxido de carbono (CO2), gás que causa o efeito estufa. O Brasil dispõe de rigorosa legislação de proteção ambiental. É preciso cautela para não radicalizar, ocasionando uma estagnação insustentável, além de uma fiscalização efetivamente eficaz.
Numa escala incomparavelmente menor, as ações setoriais em prol do ecossistema, geram benefícios imediatos e demonstram consciência sobre a importância de transmitir às futuras gerações um meio ambiente saudável. Nesse aspecto, os hotéis que adotam atitudes preservacionistas demonstram para os hóspedes que estão comprometidos com a causa e despertam reflexões sobre a urgência de enfrentar o desafio ambiental.
Para o empreendimento, além de um argumento de marketing, essa atitude interfere no bom desempenho do negócio. As economias em recursos energéticos e hídrico representam uma redução de até 30% dos gastos de um hotel, conforme Vicente Lamachia, presidente do Grupohotel, enfatizou no seminário realizado pela instituição, em março, em São Paulo.
Visualizando as ações que devem ser observadas pelo setor no Brasil, inerentes ao turismo sustentável, dois empreendimentos de diferentes portes descrevem os cuidados que adotam para preservar o meio ambiente.
Neutralização
Localizado no coração da Mata Atlântica, a 1.200 metros de altitude, em Nova Friburgo (RJ), a pousada Refúgio dos Falcões realiza uma campanha de expressivo apelo. Propõe: neutralize os efeitos ambientais de sua viagem de fim de semana. Escolha e plante uma muda de árvore da Mata Atlântica. Ela irá se desenvolver e absorverá o dióxido de carbono da atmosfera, promovendo a preservação da qualidade do ar, da água e a proteção da biodiversidade. Além disso, na gestão da hospedagem, procura envolver os hóspedes em ações de racionalização da água e de energia.
O proprietário Roberto Silveira explica que para concretizar a “campanha de neutralização”, disponibiliza uma área para o reflorestamento. O hóspede planta a árvore, identificada com seu nome em uma placa. A pousada acompanha o seu desenvolvimento e, pessoalmente ou pela Internet, o turista se mantém informado sobre a vida do vegetal. Esse projeto conta com a assessoria de engenheiro florestal e de biólogo.
Defensor do turismo sustentável, Roberto afirma que os poderes municipais dos destinos turísticos devem proporcionar meios para que os equipamentos operem a atividade respeitando o ecossistema e promovendo a integração socioeconômica da comunidade com o visitante. Em Nova Friburgo, essas ações ainda são isoladas. Por sua vez, o empreendedor deve buscar soluções que assegurem a sustentabilidade socioambiental, implantando atitudes responsáveis, como o uso eficiente e sem desperdícios dos recursos naturais.
Sobre os resultados da “campanha de neutralização”, ele conta que obteve retorno imediato. Muitos de seus clientes já se engajaram à causa, reservando diárias. E, frisa: “asseguro que os hóspedes estão cada vez mais experientes e conscientes. Procuram meios de hospedagem que atuam corretamente nas questões do meio ambiente”.
Com essa visão, na gestão do negócio, a Refúgio dos Falcões atua na conscientização ambiental de seus colaboradores. Paulatinamente, implementou algumas ações como economia de energia, racionalização no uso da água, redução e reciclagem do lixo. Utiliza energia solar para o aquecimento da piscina e pretende estender essa prática para todo o consumo de água. Roberto ressalta que, para ele, esse procedimento ainda requer um alto investimento. “É preciso fazer caixa”.
Visando à integração e o desenvolvimento da comunidade, todos os produtos de consumo são adquiridos na região. Os artesanatos do local decoram a pousada e são comercializados. Sempre que possível, apóia ou patrocina iniciativas culturais e ambientais, como a 1ª Mostra Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, realizada em Mury - Nova Friburgo.
Fundada em 2002, a pousada tem 300 mil m2 e 10 UHs, dispondo de jardins, piscina com água mineral corrente e spa. Surgiu como um local de encontro de terapeutas e o primeiro trabalho realizado foi o Spa do Amor, visando promover maior conscientização dos padrões afetivos. Em pouco tempo, a propaganda boca-a-boca atraiu novos hóspedes.